domingo, 13 de outubro de 2019

Castelo de Vila Viçosa

Nos anos de 1939, 1940 e 1941, o Castelo de Vila Viçosa é alvo de um conjunto de intervenções promovidas pela Direção Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais. Esta estratégia de valorização ideológica inseriu-se na ação política do Estado Novo e da exaltação dos valores ligados à Restauração da Independência, que tinha tido em Vila Viçosa, em 1640, um dos seus principais lugares. 
A planificação é pensada pelo Ministro das Obras Públicas, Duarte Pacheco, que tinha também uma forte ligação afetiva a Vila Viçosa. 


Foi então definido um plano que viria a alterar profundamente o contexto urbanístico de Vila Viçosa, inserido no estilo designado "Português Suave", que procurava implementar uma arquitetura genuinamente portuguesa.

Nestes três anos, são efetuadas as primeiras e mais significativas ações, levadas a cabo pelo empreiteiro António Domingues Esteves, consistindo na demolição de paredes de alvenaria, consolidação e regularização da muralha, construção e assentamento de degraus e de ameias, segundo as existentes; construção e assentamento de cantaria aparelhada em cunhais, portas e degraus; construção de paredes de alvenaria em muralhas; demolição da Capela de Nossa Senhora dos Remédios; reconstrução da torre cilíndrica ao lado da Porta de Évora; entaipamento da porta de Elvas e do cubelo quadrangular na sua proximidade, que descaíra, aproveitando-se os seus materiais; demolição da ponte de alvenaria de acesso à porta principal da fortaleza artilheira; demolição das duas tenalhas e da cortina, que se adossava à torre albarrã; reparação geral da armação dos telhados, com substituição de madeiras, e da cobertura na fortaleza artilheira; arranjo dos acessos ao castelo e apeamento e transferência do pelourinho, para a localização actual e da Porta do Nós (na Cerca Nova) para junto da cerca do Mosteiro dos Agostinhos. 

As grandes obras vão prolongar-se até meados dos anos 50 do século XX e abrangeram a cerca medieval, a fortaleza-artilheira e as fortificações seiscentistas.

 As intervenções efetuadas geram hoje alguma controvérsia nos especialistas sobre esta matéria, porque correspondem a um plano com uma forte carga ideológica e que sacrificou alguns dos elementos originais da Cerca Velha.
 Também a Capela de Nossa Senhora dos Remédios, situada junto da torre albarrã e provavelmente do século XVI, foi completamente demolida. Uma decisão polémica, tendo em conta o valor do revestimento azulejar do seu interior e a perda parcial do retábulo de talha dourada do início do século XVIII, felizmente recuperados por ação da Fundação da Casa de Bragança.

Na imagem, temos a construção (ou reconstrução ?) da Porta de Évora, uma das mais importantes referências do Castelo nos nossos dias. 


Fonte consultada:

www.monumentos.gov.pt/site/app_pagesuser/sipa.aspx?id=3927


quarta-feira, 18 de setembro de 2019

DOÇARIA CALIPOLENSE COM HISTÓRIA : O BOLO DUQUE


Vila Viçosa tem vindo a assumir um papel de cada vez maior destaque mediático. Somam-se as reportagens e as notícias sobre nossa realidade. Paulatinamente, os holofotes de diferentes meios de comunicação tem vindo a incidir sobre a história e o património da Vila Ducal, o que se tem refletido no aumento do número de visitantes, de modo exponencial.
Penso que é fácil comprovar que o mês de Agosto de 2019 registou um substancial crescimento em relação aos mesmos meses em anos anteriores. Conforme tenho defendido, esse aumento beneficia todos: museus, hotelaria, restauração e comércio.
Dá vitalidade à terra.
A experiência que tenho nesta área diz-me a demanda turística dos nossos dias procura uma oferta cada vez mais qualificada e vocacionada para aspetos diferenciadores: os recursos endógenos e as questões identitárias são os requisitos que muitas vezes estão na base das escolhas.
Procura-se algo diferente e pretende-se um serviço de qualidade.
E, nesse contexto, Vila Viçosa tem tudo: um património excecional e cada vez mais valorizado, uma história repleta de acontecimentos relevantes para Portugal e uma gastronomia muito rica e diversificada.
Sabemos que este triângulo de opções motiva em muitos casos a planificação das visitas.
No caso da doçaria calipolense, temos tido em grande destaque o sericá, vindo das bandas do Oriente, excelente iguaria com uma forte carga histórica e as tradicionais tibornas. Mas existe uma outra iguaria com génese em Vila Viçosa que ainda não está devidamente divulgada e que poderia constituir mais um atrativo a ter em conta nos menus e nos produtos a disponibilizar aos turistas.
Falo do BOLO DUQUE, uma receita que terá tido, segundo as crónicas, origem em Vila Viçosa, numa homenagem do chefe doceiro do Paço Ducal ao Duque de Bragança, D. Teodósio II por ocasião do seu aniversário ou do casamento com D. Ana de Velasco y Girón, em 1603.
A promoção de mais este doce, em associação com todos os outros já referenciados, podia assumir-se como uma marca específica de Vila Viçosa e tornar-se num outro factor de atratividade.
Nada melhor do que monumentos conjugados com doces e iguarias para motivar uma visita a um determinado local. Fica o desafio para os empreendedores, juntamente com a receita:

BOLO DUQUE

TEMPO DE PREPARAÇÃO : 35 minutos
TEMPO DE COZEDURA : 1 hora

Ingredientes (4 a 6 pessoas)

500 gramas de açúcar
10 gemas + 3 claras
250 gramas de batata
100 gramas de manteiga
250 gramas de miolo de amêndoa
Manteiga q.b.
Coza e rale as batatas. Pise a amêndoa e bata as claras em castelo. Bata conjuntamente todos os ingredientes e leve ao forno em forma untada com manteiga.

FONTE:
Tesouros da Cozinha Tradicional Portuguesa, Seleções do Reader’s Digest, 1984




segunda-feira, 27 de maio de 2019

CHAFARIZ DEL-REI


Este bebedouro, localizado no Terreiro do Paço, junto à “Janela de Lisboa”, foi construído no ano de 1772, por ordem do Rei D. José, não somente para uso público, mas principalmente para nele beberem as manadas de cavalos da Coudelaria de Alter, quando vinham pastar nas coutadas da Casa de Bragança.
Estava situado no extremo meridional do Terreiro, junto do muro do Jardim do Bosque, por debaixo da “Casa de Lisboa”. Era abastecido por nascentes provenientes da “Ilha”, tendo sido bastante utilizado durante o período em que as unidades de Cavalaria do Exército Português (Regimento de Cavalaria 3 e Escola Prática de Cavalaria) estiveram no Mosteiro de Santo Agostinho (atual Seminário Menor da Arquidiocese de Évora), ao longo do século XIX.
Foi seu construtor o pedreiro calipolense José Mendes Brochado, um dos mais engenhosos mestres de cantaria da região, no século XVIII. A sua longa taça alteada, de mármore lavrado, tinha capacidade para 50 cavalos.
Na esquina deste local existiu até 1881 uma guarita da guarda pessoal do Paço Ducal, que se demoliu nesse ano por ser considerada desnecessária.
No decurso das grandes obras de urbanização e requalificação do Terreiro do Paço, nos anos de 1939/40 (que também se aplicaram no Castelo e no centro histórico de Vila Viçosa, promovidas pelo Ministério das Obras Públicas), o CHAFARIZ DEL-REI foi demolido. Restaram apenas as três gárgulas situadas no alçado, que ainda subsistem, desenhadas em octógonos seccionados.

BIBLIOGRAFIA
ESPANCA, Túlio Inventário Artístico de Portugal – Distrito de Évora, Zona Sul, vol. I, Academia Nacional de Belas Artes, Lisboa, 1978.




sexta-feira, 10 de maio de 2019

VILA VIÇOSA E A “GRIPE ESPANHOLA”


Precisamente há cento e um anos atrás, Vila Viçosa foi assolada por um trágico acontecimento, provavelmente desconhecido para a maioria dos atuais Calipolenses.
Em meados de Maio de 1918, é identificado em Vila Viçosa o primeiro caso no nosso país da Gripe Espanhola, designação vulgarmente atribuída à Gripe Pneumónica.

O vírus foi trazido para o concelho de Vila Viçosa, precisamente de Espanha, por trabalhadores rurais que faziam na altura campanhas agrícolas em Badajoz e Olivença. A pandemia ficou por isso também conhecida como a “Senhora Espanhola”.

Este fenómeno veio de certa forma reavivar o velho ditado que afirmava que de Espanha, “nem bom vento, nem bom casamento”, numa velha alusão ao vento suão e aos casamentos reais.
O primeiro caso registado da doença em Portugal foi precisamente aqui. O regresso a casa desses trabalhadores sazonais calipolenses foi determinante para a expansão da doença. A freguesia de Ciladas/São Romão foi a mais afetada pelo vírus, que devastou dezenas de vidas.

Um notável médico calipolense, João Augusto do Couto Jardim, foi um lutador incansável contra a doença, prestando apoio médico às vítimas de forma incondicional e gratuita. Para acudir aos doentes de São Romão, fez vezes sem conta o caminho para a freguesia (que dista onze quilómetros da sede do concelho) a pé, de burro ou em carro de mula.

A partir de Vila Viçosa, verificou-se uma disseminação rápida da doença. As precárias condições de vida que afetavam a maioria da população, a generalizada ausência de condições de higiene, a insuficiência dos serviços de saúde, a falta de médicos e a falta de medicamentos foram os fatores que contribuíram para a propagação da Gripe Espanhola por todo o país. Curiosamente, os casos mais graves e mortais foram sobretudo na população jovem. Os principais sintomas eram as manchas castanhas no corpo e a pele em tons azulados, juntamente com as febres altas e as dificuldades respiratórias.

Existem no entanto várias dúvidas sobre a verdadeira proveniência geográfica do vírus. Com provável origem na Ásia, os primeiros casos na Europa são identificados nas tropas francesas em 1918, no decurso da I Guerra Mundial, eventualmente contaminados por auxiliares chineses contratados para apoio aos Aliados. Uma outra teoria defende que o vírus terá começado nos Estados Unidos e fora trazido pelas tropas americanas para a Europa, no decurso do conflito.

No total, registaram-se cerca de 40 milhões de mortes em todo o mundo, das quais entre 50 mil a 70 mil em Portugal.





terça-feira, 2 de abril de 2019

QUINTA DO GENERAL


Foi construída por D. João Diogo de Ataíde, 1º Conde de Alva, governador da província entre 1724-1727, por compra a Brites Coelho, em 1724, do colmeal do sítio do Misaral e da folha da coutada da Cruz do Tojal, integrada nas courelas dos bens foreiros da Câmara, para fins de vilegiatura[1].
O 1º Conde de Alva foi filho segundo do 6º Conde de Atalaia, D. João Manuel de Noronha e de D. Francisca Leonor de Mendonça, filha dos 1ºs Condes da Ribeira Grande. Foi um ilustre militar e conselheiro de Guerra do Rei D. João V, alcançando, com distinção, o posto de tenente-general, convertendo-se num dos mais competentes oficiais da Guerra da Sucessão em Espanha, onde acompanhou o marquês de Minas na tomada de Madrid em 1706.
Foi casado com D. Constança Luísa Monteiro Paim[2]. Diziam os antigos no século XIX que o casal tivera um filho, que morrera afogado no lago da quinta. D. João possuiu ainda o morgado e senhorio dos Reguengos da Maia e de Agrela e a Comenda de Santa Maria de Campanhã. Morreu a 11 de Abril de 1750.
Destacam-se alguns acontecimentos ligados a este espaço.
No dia 17 de Maio de 1727, é convocado o povo calipolense para se deferir uma petição do proprietário D. João Diogo, para se lhe aforar uma quarta parte da courela na coutada da Cruz do Tojal, que partia com colmeal do suplicante e herdades. Por ficar de ponta nesse pedaço de terra, anuem a que se defira, pondo-lhe o foro anual de 500 réis. Daqui resultou a constituição da Quinta do General, que está na coutada perto da Ribeira de Borba[3].
Em 1794, a Quinta do General foi adquirida por Estevão Duarte Cordeiro[4] a Tomé Antunes Moreira. Em 1882, segundo o recenseamento efetuado, viviam na Quinta do General três pessoas, provavelmente da mesma família[5]. Esta zona, apesar de insalubre, era conhecida pelas excelentes laranjas que produzia.
Está situada na meia encosta do aprazível vale que bordeja ao norte a estrada para São Romão, na distância aproximada de 3 quilómetros de Vila Viçosa.
Possui um excelente pomar e vestígios de um jardim de flores de espinho. A casa rural tem uma silhueta interessante pelos seus telhados e empenas assimétricas, terraço eirado e ruas de latadas. Possui ainda um tanque de lavagem e fonte de pórtico de alvenaria artística, escaiolada, com frontão recortado de tabela axial cega e arcada de pilastras e meia cúpula enconchada, obra característica de arquitetura civil do reinado de D. João V. Conserva bancos de repouso, pilaretes para as latadas e pavimento lajeado de xisto.
Nos terrenos da quinta, que até meados dos anos 80 pertenceu ao lavrador Inácio Pombeiro, recolhida da profanada igreja do Convento de São Paulo e da capela privativa da banda do Evangelho, consagrada à Santíssima Trindade, encontra-se, já bastante danificada por ter sido utilizada em qualquer engenho, a lauda sepulcral do tesoureiro-mor da Capela Ducal de Bragança, P. Dr. Manuel Pessoa, com a seguinte legenda de cronograma truncado:

S.ªE CAPELLA DO D.tor P.e M.el
PESSOA THEZOUR.º MOR Q
FOI DA CAPELLA DO ESTADO
DE BRAG.ca FAL.º EM 25 DE IAN.º16.S

No ano de 1992/3, a propriedade foi adquirida pela D. Filipa Lobato e pelo Pintor/Escultor Espiga Pinto, artista plástico natural de Vila Viçosa, que promoveram uma requalificação do espaço edificado e das estruturas anexas.
Em 1997 Dick e Elisabeth Bleyerveld adquirem a Quinta, que passa a designar-se Quinta do Colmeal, adaptando-a a unidade de turismo rural. Nessa data, o imóvel estava bastante degradado e passou por uma renovação profunda, mantendo as suas formas originais, mas não esquecendo o conforto exigido nos tempos atuais.





[1] Espaço utilizado para descanso, sobretudo no campo
[2] Filha herdeira de Rui Monteiro Paim, Secretário de El-Rei D. Pedro II
[3] ESPANCA, Padre Joaquim José da Rocha, Memórias de Vila Viçosa, 36 cads., Câmara Municipal de Vila Viçosa, Vila Viçosa, 1983 – 1992.
[4] Nasceu em Vila Viçosa em 1734. Formou-se em Direito na Universidade de Coimbra, tendo exercido advocacia em Vila Viçosa, onde sempre viveu. Foi recebedor do Almoxarifado e posteriormente, foi Administrador do Almoxarifado desta localidade em 1793.
[5] ESPANCA, Padre Joaquim José da Rocha, Memórias de Vila Viçosa, 36 cads., Câmara Municipal de Vila Viçosa, Vila Viçosa, 1983 – 1992.



Bibliografia Consultada:

ESPANCA, Padre Joaquim José da Rocha, Memórias de Vila Viçosa, 36 cads., Câmara Municipal de Vila Viçosa, Vila Viçosa, 1983 – 1992.
ESPANCA, Túlio, Inventário Artístico de Portugal – Distrito de Évora, Zona Sul, vol. I, Academia Nacional de Belas Artes, Lisboa, 1978.




                                                            Fonte do século XVIII




                                                                            Lápide

terça-feira, 5 de março de 2019

LENDA DO FORNO DA MULHER



No seguimento da terrível e verídica história dos assassinatos do Alto da Portela, o Padre Espanca, grande cronista de Vila Viçosa no final do século XIX, conta-nos uma lenda que ouviu contar aos seus pais e avós.

Escreveu que, no seu tempo, muita gente confundia a lenda do forno da mulher com a história anterior, não havendo, no entanto, qualquer ligação entre ambas. A proximidade dos locais onde se terão passado os factos gerava por vezes algumas confusões.

Tratavam-se de casos muitos diferentes.

O forno da mulher estava situado também no Alto da Portela, já quase na Toca do Lagarto, à mão esquerda de quem vem de Vila Viçosa. Estava localizado no olival que precede outro onde começa a descer a estrada vicinal para as Fontanas, passando pelo Seixo Branco. Ficava muito perto da estrada de Bencatel, não muito longe do lugar onde o terrível João executara a mulher e o filho em 1781.

A lenda do forno da mulher devia ser muito antiga, já que em meados do século XIX só já existiam ruínas do local. Em 1873, conta o Padre Espanca que o médico Bivara, proprietário do terreno, retirou o que restava do antigo forno e plantou uma estacaria de oliveiras que ainda por lá existem.

No final do século XIX, aquela zona era já somente conhecida como o sítio do forno da mulher, não existindo nessa data nenhum vestígio da construção.

Os fornos de cal tinham uma especial relevância nesta zona. Pelo menos desde a Idade Média que é conhecida a produção de cal, obtida através da liquidificação do mármore a elevadas temperaturas. Em termos económicos, até à introdução das tintas plásticas, tratava-se de uma actividade muito importante.

Em tempos muito distantes, achava-se o dito forno a cozer a cal e já no terceiro e último dia da cozedura, apareceu na estrada uma caleça (carruagem), conduzida por um homem com um ar fidalgo e uma senhora. Parando junto do forno, apeou-se o cavalheiro e foi ajustar com o caleiro a venda em globo da fornada de cal, que pagou de pronto, mandando retirar os operários que ali se encontravam a trabalhar.

Dias depois, constatando que a fornada se encontrava intacta, foi ali por curiosidade o caleiro que a vendera por inteiro e encontrou uma chinela de mulher perto da boca do forno.

Muitos dias se passaram e nunca o desconhecido comprador da cal apareceu a removê-la dali, ficando a entender os contemporâneos que o cavalheiro com a ajuda do cocheiro haviam metido a mulher que traziam na caleça, viva ou morta, para dentro do forno ardente.

Esta é a lenda, que não se sabe ser verdadeira ou não. O que é certo é que aquele local ficou para sempre conhecido como o Forno da Mulher, designação que só podia surgir por alguma razão.

Bibliografia

ESPANCA, Padre Joaquim José da Rocha, Memórias de Vila Viçosa, Cadernos Culturais da Câmara Municipal de Vila Viçosa