No final do século XIX, a roupa secava ao sol no Terreiro do Paço Ducal de Vila Viçosa!
quinta-feira, 11 de outubro de 2018
segunda-feira, 8 de outubro de 2018
REFEITÓRIO MANUELINO DO CONVENTO DOS AGOSTINHOS
Situado no piso térreo do antigo
convento, trata-se de uma obra do tempo do quarto Duque de Bragança, D. Jaime
(1º quartel do século XVI). Está lançado em duas naves de planta retangular,
com abóbada de nervagem e seis colunas de mármore branco, que salientam a
feição mudéjar comum aos edifícios alentejanos deste período.
terça-feira, 2 de outubro de 2018
As actividades produtivas em Vila Viçosa nos séculos XVI e XVII
Talvez
seja hoje para nós difícil imaginar como seriam as vivências quotidianas da
Vila Ducal no passado. A julgar pelas crónicas, Vila Viçosa era um centro de
referência, também no que diz respeito às atividades produtivas.
Ao longo
dos séculos XVI e XVII, marcaram presença em Vila Viçosa, à sombra do mecenato
dos Duques de Bragança, várias atividades artísticas e produtivas, que se
extinguiram depois de 1640, quando o oitavo Duque, D. João, assume a Coroa,
como D. João IV, o primeiro da Dinastia brigantina.
São
conhecidas as atividades de António Rodrigues, no século XVI, como oficial de
instrumentos astronómicos e de navegação. No Paço Ducal, estava em
funcionamento um verdadeiro “laboratório”. Existiam oficinas de pintores,
carpinteiros, douradores, entalhadores, tecelões e sobretudo mestres de cantaria,
arte que perdurou até à atualidade.
Destacam-se
os nomes de Agostinho Nunes, Manuel Pires e Manuel Rodrigues, que se tornaram
famosos fora dos limites do concelho e que tomaram a empreitada da construção
da Fonte da Alameda, em Elvas, no ano de 1628, segundo encomenda do mestre
Fernão Gomes.
Dos
serviços de que a vila dispunha, destacam-se também o elevado número de
sapateiros, alfaiates, barbeiros e ferradores. Não faltavam os ourives,
sobretudo para satisfazer as encomendas da Casa de Bragança. Está igualmente
comprovada a existência de “cabeleireiros”, já no século XVIII.
A fábrica
de vidro, localizada nos anexos do Paço Ducal em 1621, junto à cozinha, teve
como mestre o técnico estrangeiro Martim Sousão e o moinho de papel, construído
em 1637 na ribeira de Borba, que fornecia a produção documental da Casa de
Bragança, fator essencial na administração do ducado.
Para além disso, existiam vários lagares de azeitona, ao longo da Ribeira do Beiçudo, que funcionaram até ao século XIX. No século XVII, o mais importante era o lagar de João Tomé, situado junto da Carreira das Nogueiras.
Também a
nível dos armeiros se destacam vários nomes nos séculos mencionados,
conhecendo-se a determinação municipal de 23 de Janeiro de 1641, que impôs aos
espingardeiros Manuel Pereira e Jorge Cordeiro (provavelmente filho de João
Cordeiro, mestre espingardeiro do Duque D. Teodósio II em 1607) e aos ferreiros
João, Afonso e Domingos (todos de apelido Rodrigues), a produção exclusiva de
arcabuzes para o exército, pagando-se 3000 reis por cada arma.
A
localidade era também abastecida regularmente dos produtos que necessitava.
Existiam dois açougues, cuja carne, trazida de fora, era contratada a
marchantes. O peixe vinha de Setúbal duas vezes por semana e era fornecido por
regatões obrigados a abastecer a Casa de Bragança. Existia também um celeiro,
situado na extinta Praça Velha, junto da antiga Câmara (nas imediações do
Pelourinho, no acesso ao Castelo). Este armazém assumia uma função de relevo,
sobretudo nos anos de carência, através do fornecimento de sementes aos
proprietários rurais.
FONTES CONSULTADAS:
ARAÚJO, Maria Marta Lobo de, Dar aos
pobres e emprestar a Deus: as Misericórdias de Vila Viçosa e Ponte de Lima
(Séculos XVI-XVIII), Barcelos, 2000.
ESPANCA,
Túlio,
Inventário Artístico de Portugal – Distrito de Évora, Zona Sul, vol. I,
Academia Nacional de Belas Artes, Lisboa, 1978.
sexta-feira, 28 de setembro de 2018
Histórias sinistras de Vila Viçosa - Capítulo II
É comum
falar-se hoje na crise de valores e nos males que assolam a sociedade. Todos os
dias somos confrontados com crimes hediondos, onde fica claro que muitas vezes
os perigos e as ameaças surgem dentro do próprio lar…
No
entanto, o passado é pródigo em relatos macabros, de acontecimentos em que a
realidade supera qualquer ficção. Infelizmente, esta é uma dessas histórias…
No serão
de 27 para 28 de Dezembro de 1852, no Dia dos Santos Inocentes (estranha
coincidência), descobriu-se um crime em Vila Viçosa que causou grande
consternação nos calipolenses. Uma velha chamada Maria, viúva de Manuel António
e vulgarmente conhecida por Maria do Manuel António, era encarregada pela parteira
Maria José Troca, responsável pela roda dos expostos, de tornar a expô-los em
Borba e no Alandroal.
Isto
acontecia porque as referidas vilas limítrofes mandavam para Vila Viçosa muitos
enjeitados, o que aumentava as despesas do concelho, segundo as indicações do
Vereador Fiscal da Câmara[1].
A Maria do Manuel António era pois a responsável por levar os expostos de novo
para as localidades de origem.
Com este
episódio trágico, o que era secreto veio a tornar-se público e até escandaloso.
A
parteira Maria José Troca recebia da Câmara 480 réis para gratificar cada
reexposição, mas dava apenas 120 réis à dita Maria do Manuel António, ficando
com o resto. Ora a velha, que era useira e vezeira na bebedice, farta de andar
em jornadas noturnas entre Vila Viçosa, Borba e o Alandroal por tão baixo
preço, começou a abandonar os enjeitados fora das rodas e pelos campos, onde
alguns foram encontrados vivos e outros, infelizmente, já mortos…
Por fim,
tinha a velha em sua casa um enjeitado para reexpor na noite de 27 para 28 de
Dezembro. Porém, como estava embriagada, meteu a pobre criança debaixo da
esteira onde dormia, para não ouvir o choro. Os vapores do vinho inspiraram-lhe
instintos desumanos contra o pobre inocente que chorava com toda a força, tanto
por causa do frio da velha casa do Castelo, como pelo sufocamento provocado
pela velha bêbada recostada na esteira.
O choro
do bebé foi ouvido por alguns rapazes que passavam pela Rua de Estremoz, que rapidamente
deram o alerta a outros moradores do Castelo. A Maria do Manuel António estava
a matar uma criança e os vizinhos, movidos de compaixão pelo inocente, não
demoraram em ir bater-lhe à porta para confirmarem a denúncia. Assim foi.
Bateram com força na porta e a velha resolveu acudir ao chamamento. Quando
entraram, já a criança havia expirado…
Levado o
caso ao Administrador do Concelho, foi a viúva metida na cadeia, com a
população calipolense revoltada e em grande alvoroço. Para além do corpo de
delito feito ao cadáver do enjeitado referido, foram feitas escavações no
quintal da casa do Castelo, onde foram encontradas mais ossadas de crianças…
Na
primavera seguinte veio de Estremoz o Juiz de Direito da comarca sentenciar a
ocorrência e por Maria do Manuel António já ter 70 anos, foi condenada a prisão
perpétua. Faleceu de morte natural, passados três anos de cativeiro…
[1]
Segundo as Ordenações
Manuelinas de 1521 e confirmadas
pelas Ordenações Filipinas de 1603, as Câmaras
deveriam arcar com o custo de criação do enjeitado nascido sob a sua
jurisdição, caso esta não tivesse a Casa dos Expostos e nem a Roda dos Expostos. A
Câmara teria essa obrigação até que o exposto completasse sete anos de idade.
FONTE BIBLIOGRÁFICA
ESPANCA,
Padre Joaquim José da Rocha, Memórias de Vila Viçosa, 36 cads., Câmara
Municipal de Vila Viçosa, Vila Viçosa, 1983 – 1992.
quinta-feira, 20 de setembro de 2018
Praça Nova de São Bartolomeu
Antiga Praça Nova de São Bartolomeu (actual Praça da
República de Vila Viçosa)
As casas que se podem ver na imagem foram demolidas em
1939/40, de acordo com o novo plano de urbanização, que criou a Praça da
República, promovido pelo Estado Novo. O quarteirão de casas desde este local
até ao Castelo foi completamente arrasado, para a criação de uma praça
monumental, cujo ponto oposto é a Igreja de São João Evangelista (São
Bartolomeu).
Do lado esquerdo da imagem, temos a antiga Rua de Évora (que
seguia desde a Comercial até ao actual Posto dos CTT)
quarta-feira, 19 de setembro de 2018
AS HISTÓRIAS SINISTRAS DE VILA VIÇOSA
Em cada
recanto de Vila Viçosa, há histórias por contar…
Algumas
delas românticas e deliciosas, outras tristes e macabras.
Esta é
uma das últimas…
No Largo Mouzinho
de Albuquerque encontra-se uma lápide em mármore com uma inscrição, que levanta
a curiosidade de muitos dos que ali passam.
No dia 16
de Setembro de 1852, foi assassinada em Vila Viçosa Luísa Joaquina da
Conceição, conhecida como Luísa Mamede, viúva, que morava numa casa do antigo Rossio,
onde foi colocada a lápide que ainda hoje ali se encontra. Luísa Mamede foi
morta pela sua criada, Maria da Assunção. Esta sabia ler e escrever
corretamente e prestava-se a escrever as cartas que as suas amigas enviavam aos
namorados.
Porém, um
dia, Luísa Mamede encontrou umas cartas dirigidas a uma criada de Serafim José
da Mata, seu cunhado e tio de Maria da Assunção. Chocada com a descoberta,
Luísa pôs as cartas na algibeira e disse que as iria mostrar a Serafim. A criada ficou assustada!
Passaram
as horas e ao meio-dia, Maria da Assunção colocou o almoço na mesa para Luísa
poder comer. Sentada a patroa, Maria da Assunção suplicou-lhe que entregasse as
cartas. Ao não atender o seu pedido, a criada tentou extrair-lhe à força as
cartas da algibeira. Luísa resistiu. Maria da Assunção, exaltada, pegou no
canudo de ferro da chaminé e deu-lhe com ele na cabeça. Então a patroa reagiu
defendendo-se com o garfo de ferro com que tinha principiado o almoço e a
criada, lançando a mão à faca da mesa, cravou-lha no pescoço, cortando-lhe a
artéria jugular do lado esquerdo.
Instantes
depois, caia Luísa no pavimento da cozinha, banhada no seu próprio sangue…
Maria da
Assunção ficou atrapalhada, sem saber como havia de encobrir o crime horrendo
que cometera. No meio dos seus próprios remorsos, ocorreu-lhe chamar um
familiar que morava defronte da casa, nas Aldeias. Vindo este, contou-lhe que
fora colher uvas à parreira do quintal para a sobremesa do almoço e que entrara
alguém que assassinara a patroa. Porém, a porta da rua estava fechada e foi
preciso que ela própria a abrisse para o familiar poder entrar.
Depois,
alguns dos que entraram a ver o sinistro repararam que Maria da Assunção tinha
pingos de sangue no pescoço e logo murmuraram que fora ela a autora do crime.
Ainda nessa noite, a criada foi dormir à cadeia e no dia seguinte, aos
interrogatórios, vendo-se apanhada em mentiras, confessou o crime.
Tinha por
esses dias concluído a formatura em Direito o calipolense Francisco Augusto
Nunes Pousão (pai do Pintor Henrique Pousão) e quis estrear-se na advocacia
tomando à sua conta a defesa da ré. Fez o que foi possível para atenuar-lhe a
pena. Foi brilhante no seu discurso na audiência, onde estava presente o Padre
Joaquim Espanca (de cujos documentos retirámos esta história).
Porém, o
crime, apesar de não sido premeditado, foi de tal gravidade que não pôde o Juiz,
com o veredicto dos jurados, deixar de condená-la. A primeira sentença foi de
pena de morte. Apelando o defensor para a Relação de Lisboa, foi-lhe atribuída
a pena de degredo perpétuo para as costas de África, onde viveu até quase ao
final do século XIX.
Uma
curiosidade desta história tem a ver com o facto de que, ao abrir-se o
testamento de Luísa Mamede, se constatou que esta legava à criada assassina uma
prédio de casas “rasteiras” na Rua dos Frades (antiga artéria situada junto do
Convento da Esperança). No entanto, esse legado ficou sem efeito porque as leis
civis já impunham nesta data a pena de deserdação a inimigos ingratos e cruéis.
FONTE
ESPANCA, Padre Joaquim José da
Rocha, Memórias de Vila Viçosa, 36 cads., Câmara Municipal de Vila
Viçosa, Vila Viçosa, 1983 – 1992.
terça-feira, 4 de setembro de 2018
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