A Igreja de Nossa
Senhora ou de Santa Maria do Castelo, foi provavelmente construída nos últimos
anos do século XIII ou início do século XIV, correspondendo à época de
construção da Cerca Velha de Vila Viçosa. Esta é uma perspetiva da antiga Rua
da Porta de Estremoz, onde se encontram três portais de arte gótica, em
mármore, do século XIV.
quarta-feira, 5 de julho de 2017
quinta-feira, 22 de junho de 2017
A brilhante corte humanista da Casa de Bragança no Paço de Vila Viçosa
É
recorrente falar sobre a importância de Vila Viçosa no século XVI. As opiniões
dos especialistas convergem em classificar a localidade como um eixo de
considerável importância a nível das artes, das ciências e das letras. Os
factos históricos apontam para excecional concentração de personalidades e de
saberes que irradiavam à luz da corte brigantina.
O
interesse dos Duques de Bragança, logo no final do século XV, pelas correntes
humanistas e pelos estudos literários e científicos teve em Vila Viçosa o seu
foco principal de desenvolvimento. O mecenatismo dos sucessivos duques foi uma
constante que originou a confluência de mestres, cientistas, filósofos,
humanistas, escritores, sábios e poetas para esta terra no coração do Alentejo.
Hoje, à
distância, pode parecer quase inconcebível que, num período em que as
comunicações tinham um tempo que não é o do século XXI, Vila Viçosa assumisse
de facto tal protagonismo no contexto europeu.
Para
contextualizar de melhor forma a evolução das correntes humanistas no Paço
Ducal de Vila Viçosa, é necessário recuar até ao ano de 1483, quando ocorre a
execução do terceiro Duque de Bragança, D. Fernando II, por ordem expressa do
rei D. João II. Este facto ocorre no âmbito de uma política de centralização do
poder régio e a Casa de Bragança surgia, claramente, como uma ameaça à Coroa. O
desmembramento da casa ducal brigantina foi uma realidade, que levou o poderoso
ducado quase à extinção…
O filho
primogénito de D. Fernando, D, Jaime, então com quatro anos de idade, é
conduzido para Espanha, juntamente com o seu irmão D. Dinis. Levados pelo tio,
D. Álvaro de Bragança, (irmão mais novo de D. Fernando II), são acolhidos pelos
Reis Católicos, Isabel e Fernando.
É precisamente
na corte espanhola que D. Jaime vai receber a sua primeira formação literária.
Teve, no estrangeiro, o privilégio de figurar, juntamente com outros jovens da
alta aristocracia espanhola, entre os primeiros discípulos do humanista
italiano Pedro Mártir de Anghiera, nas aulas de retórica.
Os
primeiros anos da formação de D. Jaime terão uma influência determinante no seu
carácter e na forma como tentou implementar princípios e normas do Renascimento
italiano em Vila Viçosa. O gosto pelo humanismo criara raízes na Casa de
Bragança, a partir de então.
No seu
regresso a Portugal, D. Dinis (irmão mais novo de D. Jaime), receberá, em
Lisboa, no Paço de D. Jaime, lições de outro humanista italiano, Cataldo
Parísio, que em 1486 trocara a Universidade de Bolonha pela corte do rei de
Portugal.
O ensino
deste mestre não se restringiu a D. Dinis, já que foi ele também o responsável
pela educação dos filhos do quarto Duque de Bragança, D, Jaime. De facto, D.
Jaime (com o mesmo nome do progenitor), D. Fulgêncio e D. Teotónio de Bragança
(futuro Arcebispo de Évora) recebem a primeira formação com base nas novas
metodologias de ensino, nos estudos feitos previamente em Vila Viçosa.
Seguem
então para Coimbra, cuja Universidade estava, em meados do século XVI, em pleno
florescimento e expansão. D. João III chamara à Academia coimbrã muitos dos
numerosos bolseiros que inteligentemente mantinha em Paris, juntamente com
outros alunos formados em Salamanca e Lovaina.
O Rei
“Piedoso” recrutara e chamara a Coimbra alguns dos melhores mestres e
professores espanhóis, franceses, italianos e espanhóis, que credibilizaram
ainda mais o ensino universitário da cidade à beira do Mondego.
No que
concerne especificamente a Vila Viçosa e depois do regresso de D. Jaime em
1496, era tempo de reerguer a Casa de Bragança. O Duque recuperou todos os seus
direitos, passou a ter o privilégio de conferir graus de nobreza, foi ordenado
herdeiro presuntivo do trono por D. Manuel e a Casa de Bragança renascia,
assumindo-se como a mais importante casa do reino, depois da casa real.
O Paço
Ducal de Vila Viçosa é a sede de uma verdadeira corte, o que explica também, em
certo sentido, a expansão urbana quinhentista da localidade. Este facto atraiu
muitas famílias importantes do Reino, que integravam o núcleo mais próximo da
Casa de Bragança.
Vila Viçosa
não foi, durante este período e pelo menos até 1640, um lugar perdido na vasta
planície alentejana. Era, sem dúvida, um centro ativo, onde acudiam, com
frequência, os correios reais e os do embaixador de Carlos V ou da mais alta
nobreza espanhola, com as novas sobre os últimos acontecimentos políticos,
sociais ou diplomáticos.
Os Duques,
nomeadamente D. Jaime e D. Teodósio I, mantiveram em diversas cidades da Europa
os seus agentes, sobretudo em Espanha e em Itália, que lhes enviavam
regularmente os seus relatórios. Estes “espiões” permitiam o acesso da casa
ducal a informações privilegiadas, obtidas com base em operações de grande
secretismo.
Para além
da reabilitação económica, social e política, o quarto Duque tinha também como
prioridade a organização de estudos regulares no recém-criado Paço Ducal (cuja
construção se inicia em 1501), não só para a sua descendência, mas também para
os moços fidalgos da corte.
Até
então, a formação dos Duques e dos seus irmãos tinha sido feita fora do
contexto calipolense: em Espanha, por motivo do exílio, em França e na Bélgica,
com o recomeço em Lisboa, antes de Vila Viçosa.
É hoje
quase um dado adquirido que as disciplinas de trivium (lógica, gramática,
retórica) foram ministradas dentro das paredes do Paço Ducal de Vila Viçosa,
logo no início do século XVI. Em relação aos conteúdos do quadrivium
(aritmética, música, geometria e astronomia), só terão sido aplicados mais
tarde, em meados de 1530.
O que
parece indubitável é que na primeira metade do século XVI, os Duques de
Bragança chamaram a si alguns dos mais importantes professores portugueses e
estrangeiros.
Um dos
mais notáveis foi sem dúvida Diogo de Sigeu. Nascido em França mas vivendo em
Toledo no início de 1522, Diogo de Sigeu entra em Portugal no séquito de Maria
Pacheco (nobre castelhana, esposa do general Juan de Padilla), aquando do seu
exílio no nosso país.
Em 1530,
é admitido ao serviço da Casa de Bragança, onde irá permanecer durante 20 anos.
Foi este mestre, formado pela Universidade de Alcalá de Henares, quem preparou
em Vila Viçosa, a D. Jaime (filho), D. Fulgêncio e D. Teotónio antes dos
estudos na Universidade de Coimbra, do mesmo modo que completou a formação
literária de D. Teodósio, iniciada na corte de D. Manuel I com Cataldo Parísio.
Sigeu deixava
Vila Viçosa vinte anos mais tarde para ingressar na corte de D. João III, como
preceptor dos jovens fidalgos. Foi substituído por outro estrangeiro, o
sevilhano Juan Fernandez, antigo professor em Alcalá de Henares e Salamanca, no
Colégio de Santa Cruz de Coimbra e catedrático de Latim na Universidade da
mesma cidade.
Permaneceu
em Vila Viçosa durante cerca de trinta anos. O ensino das Humanidades no Paço
do Reguengo não terá sofrido interrupções ao longo de todo o século XVI e foram
diversos os mestres que aqui lecionaram, nomeadamente Fernão Cardoso, Fernão
Soares, Gaspar Colaço e António de Castro.
Paralelamente
ao ensino das disciplinas clássicas, ocorreu também neste período em Vila Viçosa
o ensino das matérias científicas do quadrivium. António Maldonado Ontiveros
dirigiu uma escola de astronomia no Paço. Chegado a Portugal em 1526, o médico
e astrólogo espanhol iria fixar-se para sempre em Vila Viçosa, por mais de
quarenta anos, prestando serviço não somente aos Duques, mas também a D. João
III.
Numa
corte constituída por mais de 350 pessoas, sobressaíram nomes como os de Martim
Afonso de Sousa (que lançaria as bases da colonização do Brasil), Diogo Mendes
de Vasconcelos, Gonçalo Pinheiro (futuro Bispo de Viseu) e Manuel da Costa
(professor das Universidades de Coimbra e de Salamanca, cuja ascendência era
originária precisamente de Vila Viçosa).
Aqui
estavam estabelecidos médicos e juristas ao serviço do Paço, os mestres que
tinham sob sua responsabilidade a formação dos Duques e dos jovens nobres da
Casa de Bragança e os homens das letras protegidos pelo círculo brigantino:
Jerónimo Corte –Real, António de Sousa de Abreu, o poeta Pedro de Andrade
Caminha, Fernão Cardoso, ou ainda, Afonso Vaz de Caminha, um dos fidalgos mais
eruditos do seu tempo.
Em Vila
Viçosa estava em 1571 a jovem Públia Hortênsia de Castro, então com 22 anos,
famosa em letras, que não foi esquecida na relação da viagem do Cardeal
Alexandrino.
Para além
disso, verificava-se também uma intensa e dinâmica atividade científica. Os
estudos de cosmografia foram tema predileto dos Duques. Aqui existiu, sem
dúvida, um observatório astronómico e António Rodrigues, grande mestre da conceção
de instrumentos astronómicos e de navegação, tinha oficina na terra. O próprio
D. Jaime era entendido em artes náuticas e D. Teodósio dedicado de forma
peculiar às questões de cosmografia e astronomia.
O que
parece claro é que o Paço Ducal de Vila Viçosa viveu o Renascimento e o gosto
pelo Humanismo em múltiplas vertentes. Essa marca ainda hoje é visível. Os
Duques, amantes da música, foram os impulsionadores da Capela e D. Teodósio I,
dado às artes e antiguidades, enriquecia o Paço com pinturas, esculturas,
tapeçarias e mobiliário, provenientes de todas as partes do Mundo.
Mandava também recolher em Vila Viçosa
monumentos epigráficos, alguns deles provenientes do santuário pré-românico do
Endovélico, em São Miguel da Mota (Alandroal). A morte surpreendeu-o quando
estava a lançar as bases para a Universidade que quis ver instalada no Convento
de Santo Agostinho, mesmo em frente do Paço Ducal. A livraria que constituiu
era uma das mais importantes do espaço europeu, quer em quantidade, quer em
qualidade.
É de
lamentar, de certo modo, que esta dinâmica cultural tenha vindo a perder fulgor
ao longo dos séculos. É certo que a História não é estática e o passar do tempo
trouxe consigo muitas mudanças que eram inevitáveis. Hoje, vivemos um pouco na
sombra do passado.
Permanece
essa memória, que temos a obrigação de preservar. Talvez para os presentes seja
difícil entender que no século XVI Vila Viçosa tivesse um considerável
protagonismo a vários níveis, até como linha avançada da inovação e da ciência
e como exemplo erudito do pensamento humanista em pleno Alentejo.
BIBLIOGRAFIA
CONSULTADA
MATOS,
Luís de, A Corte Literária dos Duques de Bragança no Renascimento, Fundação da
Casa de Bragança, 1956.
sexta-feira, 2 de junho de 2017
A LENDA DA PORTA DO MONGE
Dizem os
Calipolenses mais antigos que, para as bandas da Quinta de São Vicente, zona atualmente
conhecida por Folharasca de Baixo, ficava a Porta do Monge, que dava acesso,
pelos muros da Tapada Real, à Ermida de Santo Eustáquio (edifício situado no
topo da colina, visível nas fotografias).
Recordo
que o muro de taipa que envolve a Tapada foi construído pelo Duque D. Jaime (4º
Duque de Bragança), logo na primeira metade do século XVI. Desde esse período que
se criaram aqui gamos, veados, javalis, lobos e raposas…
A Ermida
de Santo Eustáquio foi construída num local bucólico do couto de caça dos
Braganças, anos mais tarde, entre 1625 e 1626, pelo Duque D. Teodósio II.
Diz-se que, antes disso, aqui se encontrava uma velha atalaia ou um antigo
minarete árabe. Seja como for, a paisagem é deslumbrante.
Seria por
aqui feito o caminho pelos monges eremitas que circulavam entre a Tapada e a Ermida
de Nossa Senhora do Paraíso, onde pernoitavam nas célebres covas, nos séculos
XVI e XVII.
Este
acesso foi entaipado em data incerta. Apenas ficou o pórtico de mármore como
memória desses tempos distantes…
A Porta
do Monge seria mais um acesso à Tapada, para além das seis entradas ainda hoje existentes
na vasta extensão de 18 km de muro: A Porta de São Bento (a principal, a
ocidente), a Porta de Santa Bárbara ou Porta Velha, a Porta de Mercandela
(ambas a noroeste), a Porta de Santo António (a oriente), a Porta do Ferro (a
sul) e a Porta da Albufeira, no extremo oposto à primeira e de saída para a
estrada nacional Borba-Elvas.
Agradeço
as informações prestadas pelos Srs. Joaquim Jorge e Mário Valério, que me deram
todas as indicações para chegar ao local.
ANTA DA SERRA DAS CORREIAS
ANTA DA SERRA DAS CORREIAS
Hoje
foi dia de trabalho de campo!
A
Anta da Serra das Correias está situada num ermo distante da Serra de Coroados,
no limite do concelho de Vila Viçosa (freguesia de Ciladas/São Romão). Chegar
foi uma verdadeira odisseia, pelo meio de uma paisagem fascinante.
O atual proprietário, Sergio Cacheirinha, foi informado pelos seus funcionários, no decurso de uma limpeza do local, da descoberta de uma anta que estava envolta no silvado.
O atual proprietário, Sergio Cacheirinha, foi informado pelos seus funcionários, no decurso de uma limpeza do local, da descoberta de uma anta que estava envolta no silvado.
O
Padre Henrique Louro, em 1967, na sua monografia sobre Ciladas, refere que esta
Anta, situada nas proximidades da Herdade de Carvão, não estava devidamente
estudada. No seu termo existiu um povoado que terá tido três cintas de
muralhas, hoje muito destruídas. São ainda visíveis nas imagens as que
restaram. Nos anos 60 do século XX, foram encontrados fragmentos de cerâmica e
de mós manuais neste local. Este facto pode confirmar que o povoamento deste
território remontará à época-pré-histórica.
A
própria designação de Serra dos Coroados deriva do facto da cinta de muralhas
ter formado uma espécie de coroa circundando o cabeço.
Hoje, paira
por ali um silêncio milenar…
Não consegui encontrar mais informações sobre a Anta da Serra das Correias.
Penso que será uma referência importante a integrar na desejável Carta
Arqueológica de Vila Viçosa. Já estou a preparar um relatório para a
DRCAlentejo, no sentido de obter mais informações e para dará conta da
existência deste monumento. Será preciso estudar de forma mais rigorosa e
através dos Arqueólogos a importância deste local, esquecido pelo tempo...
Uma palavra
de agradecimento ao Sergio
Cacheirinha pela
preocupação em preservar este património e pelo cuidado que foi tido na limpeza
da envolvente. Só assim se poderá, no futuro, conhecer, conservar e divulgar
esta herança cultural!
Trata-se de mais um monumento megalítico importante pela sua antiguidade e significado, que acrescenta mais valor histórico ao concelho de Vila Viçosa!
Trata-se de mais um monumento megalítico importante pela sua antiguidade e significado, que acrescenta mais valor histórico ao concelho de Vila Viçosa!
terça-feira, 2 de maio de 2017
AS "MAIAS" CALIPOLENSES
Ainda
hoje, em muitas regiões portuguesas se celebram as festas populares e
tradicionais do “Maio Moço”. Em Vila Viçosa, até meados do século XX, tinha
lugar o culto naturalista das “Maias”, que variava das restantes no que
concerne aos ritos e às indumentárias.
Nestas
celebrações, várias crianças eram enfeitadas com variadas flores, entre as
quais as giestas tinham um papel preponderante. O cronista Lopes Manso, em
1928, considerou que as “Maias” calipolenses eram as festas com maior variedade
decorativa, pelas circunstâncias que acompanhavam a celebração.
No primeiro dia de Maio, surgiam em Vila
Viçosa vários grupos de “Maias”, que enchiam a localidade de alacridade e
beleza, festejando tão decorativa e regionalista tradição.
Cada
grupo era composto por uma criança – a “Maia”, ladeada por outras duas, na
maior parte das vezes de maior idade, agregando-se posteriormente ao grupo um
maior número de elementos, no desejo de fazerem séquito à rainha da festa ou só
por natural curiosidade.
A criança
que simbolizava a “Maia” era sempre escolhida entre as mais educadas e a sua
idade oscilava entre os cinco e os dez anos. Era vestida de branco pelas
senhoras da casa onde se formava o grupo, que lhe colocavam na cabeça grinaldas,
coroas, ou capelas de flores, entrelaçadas com raminhos de giesta florida. O
seu vestido era polvilhado de rosas, cravos, dedaleiras, cravalhetas, lírios brancos
ou roxos, tudo matizado de folhagens verdes, sendo completada a ornamentação
com fios e cordões de ouro, braceletes, brincos e anéis. Surpreendia e
encantava o efeito das juvenis “maias”, adornadas desta arte, com policromias áureas
e florescências rescendentes.
Algumas “Maias”,
para além das flores que levavam pregadas nos vestidos e das ornamentações na
cabeça, iam envolvidas em cordas ou rosários de malmequeres e margaridas,
adornos que lhe davam um aspeto ainda mais original.
Duas
crianças, em geral de maior idade que a “Maia”, levavam esta pela mão, uma de
cada banda, com uma bandeja na mão livre, para a recolha das quantias que
pediam e angariavam por toda a vila. No final da tarde, terminada a missão
festeira, a “Maia” voltava a casa para retirar os adornos e para repartir irmãmente
os ganhos em três lotes: um para a “Maia” e os dois restantes para as aias.
No mesmo
dia, muitas “Maias” percorriam todo o perímetro de Vila Viçosa. Cada grupo
queria apresentar a sua representante da melhor forma possível, com o objetivo
de conquistar o maior número de aplausos e louvores da população do burgo
calipolense.
As “Maias”
de Vila Viçosa tinham de particular e notável o facto de não só saírem no
primeiro de Maio, mas em todos os domingos e dias santificados do mês, como a
quinta-feira de Ascensão. Era, portanto, um espetáculo interessante e
policrómico que se via na localidade, durante sete ou oito dias, no período que
ia desde o primeiro ao dia 31 de Maio, período consagrado ao culto do “Maio
Moço”.
Os
curiosos e típicos grupos de “Maias” giravam por todas as ruas, largos e
travessas e entravam em todas as casas, lojas, restaurantes e estabelecimentos,
lançando sempre, em vozes melodiosas e angelicais, o seu clássico pregão
pedincheiro:
- DÊ
DINHEIRINHO À MAIA, QUE NÃO TEM SAIA!
Muitas
pessoas, especialmente nos estabelecimentos e nos lares, além de dinheiro,
ofereciam bolos, bolachas e rebuçados às simpáticas “Maias”, oferta que era agradecida
com mostras de grande regozijo. No decorrer dos peditórios, ocorriam, por
vezes, factos hilariantes e episódios cómicos que o público palmeava com calor.
Isso
acontecia especialmente quando um homem ou mulher, cavalheiro ou senhora, se
tentavam esquivar à súplica das “Maias” e deixavam de dar a sua contribuição
pecuniária. Eram tais as lamúrias dos “enxames” dourados e juvenis, que os renitentes
não tinham hipótese senão render-se às solicitações.
A festa
das “Maias” de Vila Viçosa era pois uma prática tradicional de muito brilho
decorativo.
sexta-feira, 24 de março de 2017
A RODA E O PALRATÓRIO DO CONVENTO DAS CHAGAS
Na antiga portaria do espaço
conventual, podemos identificar a roda e o palratório. Eram estes elementos que
permitiam o contacto das monjas com o “resto do mundo”. A comunidade religiosa, era por essência, invisível… A vida no interior
do convento era contemplativa e de penitência e a ligação ao mundo exterior era
sempre bastante controlada.
O palratório (neste caso de duplo gradeamento) servia para as
freiras conversarem com quem as procurava. As rodas eram
cilindros giratórios com aberturas laterais, onde se colocavam crianças
enjeitadas ou fruto de ligações "inconvenientes”. Quem entregava as
crianças não era visto por quem as recebia…
De tanto ser
usada, a roda acabou por se tornar legítima, chegando a ser legalizada nos
finais do século XVIII.
Existiam
sobretudo nos mosteiros de clausura, como era o caso do Convento das Chagas de
Vila Viçosa, onde se encontrava uma comunidade de clarissas, desde a primeira
metade do século XVI.
As imagens com
os azulejos da segunda metade do século XVIII identificam a área exterior
pública, junto da portaria e as restantes, o espaço interior do convento, área
utilizada pela comunidade religiosa.
segunda-feira, 20 de março de 2017
ANTIGO EDIFÍCIO DA CÂMARA MUNICIPAL, NO CASTELO DE VILA VIÇOSA
OUTRO ANTIGO EDIFÍCIO MUNICIPAL!
A primitiva Câmara Municipal de Vila Viçosa estava situada,
provavelmente desde o final do século XV, na chamada PRAÇA VELHA.
Este local ficava um pouco a norte do atual Pelourinho e da
Torre Albarrã, até mais ou menos ao local onde se encontra a estátua de D.
Álvaro Abranches da Câmara.
Em 1664, devido à Guerra da Restauração, a PRAÇA VELHA e os edifícios
que aí se encontravam foram demolidos, nomeadamente os açougues e a Câmara
Municipal, para a criação da ESTACADA, uma estrutura defensiva em madeira dos
olivais do termo, obstáculo que foi importante aquando do cerco a Vila Viçosa,
pelo exército espanhol, antes da Batalha de Montes Claros, em 1665.
Por esse motivo, os Paços do Concelho passaram a funcionar provavelmente
até ao início do século XVIII nesta casa do interior do Castelo que se vê na
imagem, o nº 12 da antiga Rua de António Gançoso, (atual Rua de António Paes).
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